Jeane Marques: a estudante da zona rural determinada a cursar uma graduação EaD

Jeane Macedo Marques, 31 anos, vive na zona rural do município baiano de Piatã, no povoado de Palmeirinha, a 113 km de Seabra. Mora com os pais, Claudionor Marques e Maria Lourdes Macedo Marques, e os três irmãos: Genivaldo, Genilda e Cláudio Júnior. É solteira e não tem filhos.

A renda familiar de Jeane vem basicamente da agricultura, uma tradição familiar. Desde crianças, os pais dela tiram o sustento da terra e ainda hoje ela é a garantia de subsistência da família. Hoje Claudionor e Maria de Lourdes são aposentados pelo Fundo Rural e os filhos estão em busca de novas oportunidades.

Jeane sempre foi incentivada pelos pais a estudar e também sempre se interessou pelo conhecimento. “Meus pais são analfabetos, mas sempre quiseram me ver com uma caneta e não com uma enxada na mão”, conta a estudante. Por isso, com o passar do tempo, Jeane foi estudar em Cabrália, no Centro Educacional Dr. Carlos Sant’’Anna, onde concluiu o ensino médio, em 2005.

Na escola, conheceu educadores que despertaram nela o anseio de continuar a estudar e se tornar um deles. Em 2005, concluiu o curso de Magistério, que lhe dava condições de lecionar nas séries inicias. Mas não surgiu oportunidade de trabalho para ela. Mesmo assim, o desejo de estudar e de trabalhar com Educação nunca morreu dentro dela.

Em 2008, uma amiga de Jeane, Telma Silva, falou sobre o vestibular da UNEB para os cursos de educação a distância nas áreas de História, Matemática e Química, todos vinculados ao polo de apoio presencial em Seabra. Naquele momento, Jeane se recorda de ter dito à amiga: “Fazer faculdade não é para mim, não!” Ela pensava que a distância até Seabra e as condições financeiras da família dela seriam empecilhos à realização do sonho de estudar na universidade.

Mas Telma explicou a Jeane que a UNEB é uma universidade pública e os alunos de cursos a distância não precisam ir todos os dias para as aulas, como nos cursos presenciais. “Foi aí que eu e outras amigas resolvemos fazer a inscrição para o curso de História. Lembro que cheguei em casa toda feliz e falei com meus pais que iria fazer uma prova de vestibular e, se passasse, iria realizar meu sonho de fazer uma faculdade!”

Mesmo com o apoio dos pais, a primeira dificuldade logo apareceu. Como pagar a inscrição no vestibular que, na época, custava R$ 60? Jeane trabalhava com os pais na agricultura familiar, não tinha outra fonte de renda. Mas seu Claudionor, ao ver a vontade enorme da filha de estudar, resolveu vender dois sacos de farinha para pagar a inscrição no exame.

Inscrição realizada, Jeane foi à luta. Mas ela não tinha nenhum livro para estudar os conteúdos programados para as provas do vestibular. Que fazer? Procurou seu antigo professor de História no ensino fundamental, Valmir Silva, para pedir livros emprestados. Ele emprestou o que tinha e ela cumpriu, até o momento da prova, uma programação diária de quatro a cinco horas de estudo. “Nunca estudei tanto na vida!”, desabafa.

No dia do vestibular, ela e as amigas foram fazer as provas em Seabra. A sala estava lotada de candidatos lutando pelo mesmo objetivo. “Fiquei muito nervosa”, lembra, “pois era a primeira vez que estava fazendo um vestibular e ali estava a chance de realizar meu maior sonho”.

Após alguns dias, saiu o resultado. Telma deu a noticia de que o nome de Jeane estava entre os classificados. “Minha primeira reação foi desmaiar”, relembra. “Tudo aquilo tinha sido resultado de muito esforço e dedicação e, sobretudo, fé em Deus!” Depois que recobrou os sentidos, Jeane lembra de ter chorado muito de alegria.

“A grande oportunidade que sempre pedi a Deus estava ali em minha frente, só dependia de mim e do meu esforço conseguir realizar meu grande sonho de fazer uma graduação”, pensou Jeane, no momento seguinte. Isso deu a ela forças para iniciar o curso de História EaD na UNEB, em 2009. 

Depois veio outra luta. Como Jeane faria pra ir a Seabra uma vez por semana para os encontros presenciais? Foi quando resolveu ir a Piatã saber se havia mais alguém na mesma situação que ela. Foi à Secretaria de Educação do município e logo descobriu que o irmão da atendente de lá, coincidentemente, havia sido aprovado no mesmo curso.

Logo Jeane foi apresentada a Rubens Xavier, que também conhecia Vagner Alves, de Abaíra, outro novo aluno do curso de História EaD da UNEB. Os três estudantes tornaram-se amigos, desde então. De 2009 até 2013, sempre foram juntos a  Seabra, no carro de Vagner, todas as  terças, com o mesmo propósito, cada um contribuindo como podia com as despesas dos deslocamentos.

O dia-a-dia de Jeane para realizar os trabalhos da universidade também era uma batalha à parte. O acesso à internet na zona rural de Piatã não era fácil. A única opção que ela tinha era ir para uma lan house. Além disso, a internet disponível para os alunos, no polo de Seabra, também não era muito boa. E ela morava longe de Seabra.

Na lan house, Jeane conseguia ter acesso aos conteúdos do curso, mas tinha de pagar para imprimi-los e depois ler tudo em casa. Em seguida, fazia os trabalhos manuscritos em casa e retornava à lan house para postar as atividades nos fóruns das disciplinas ofertadas. O custo era muito alto para as condições financeiras dela.

Por isso, no primeiro ano, em muitos momentos, ela pensou em desistir do curso. “Cheguei a um limite que não estava dando mais para mim, me vi na pior situação de minha vida, meu sonho de estudar estava indo embora por falta de condições financeiras e tecnológicas”, conta.

Naquela época, dona Maria de Lourdes pagava as despesas de Jeane com transporte e Jeane fazia hortas para conseguir o dinheiro da internet. A aposentadoria da mãe era usada também para o sustento da casa. E o pai de Jeane, mesmo aposentado, ainda trabalhava na agricultura familiar. Mas aquele ano foi muito difícil. A água do rio secou. Foi uma época dura na casa de Jeane. As hortas que ela fazia para vender e pagar os custos com a internet não deram nada.

“Lembro que eu chorava muito, mas meus pais sempre me falavam que Deus dava jeito em tudo...”, conta. Foi quando a amiga Telma entrou novamente em cena. Sabendo da situação de Jeane, aconselhou-a a procurar a Prefeitura de Piatã para pedir um emprego ou ajuda de custo para auxiliar nas despesas do carro que a levava até o polo de Seabra.

Jeane bateu na porta da  Prefeitura para pedir emprego, mas não havia vaga. A solução apresentada pelo prefeito foi uma ajuda de custo mensal de R$ 80 por um período de dois anos. “Essa ajuda de custo rendia mais que um salário mínimo, na época!”, diz Jeane.

Uma parte do problema estava resolvida. Mas a partir do terceiro semestre, os conteúdos e trabalhos foram ficando cada vez mais difíceis e Jeane começou a precisar urgentemente de um computador em casa. Para alcançar o objetivo, ela vendeu um boi e conseguiu comprar não só o computador, mas também uma impressora.

A partir daí, a vida universitária de Jeane deu um salto qualitativo. Mas ela ainda dependia da lan house, porque não tinha internet em casa. Uma etapa do trabalho, pelo menos, seria eliminada, pois começou a realizar os trabalhos no próprio computador, ao invés de fazê-los manuscritos, para depois salvá-los em um pendrive e postar tudo da lan house.

Após dois anos de curso nessa situação, a internet chegou ao povoado de Palmeirinha. Logo ela e Telma pediram ao dono da lan house, Luedes Tunes, para compartilhar com elas o sinal da internet.  Compadecendo-se da difícil situação das estudantes, ele colocou a internet na casa de Jeane e tudo mudou. “Antes eu sentia muita dificuldade no curso, os prazos de entregar os trabalhos venciam, sem que eu tivesse tempo hábil para entregar, talvez a UNEB não soubesse da realidade dos alunos da zona rural que estavam fazendo os diversos cursos EaD...”, diz.

Mas Jeane sabe que a história de vida dela é bem parecida com as de muitos universitários no estado da Bahia.  Ela conta que, no polo de Seabra, sempre houve alunos no curso de História sem acesso à internet em casa, porque moram na zona rural. Outros moravam na cidade, mas também não tinham condições financeiras para comprar um computador e colocar internet em casa.

Os alunos do curso de História se tornaram uma família para Jeane, que passava por várias dificuldades e compartilhava com eles suas vitórias a cada encontro de terça – feira. Eram muitos os assuntos estudados e debatidos entre os grupos, com a mediação do tutor presencial João Bina. “Lembro de todos os meus colegas de curso com muito carinho, porque a minha segunda família chama-se ‘Curso de História UNEB EAD’!” A coordenadora Eldina Rosa, segundo Jeane, sempre se empenhou em ajudar os estudantes, e Flavia Brandão, a secretária, sempre atendeu todos com bom humor e comprometimento, auxiliando a coordenadora e repassando os avisos que vinham da UNEB.

Quando as dificuldades com internet já haviam sido vencidas, a situação financeira de Jeane também começou a melhorar. Ela iniciou o trabalho como professora voluntaria do Topa (Todos pela Alfabetização) e ainda fazia outros bicos. Mas, no dia 26 de maio de 2012, ela sofreu um acidente de moto. “Eu estava com uma Biz e o homem com uma Bros. Batemos de frente. O motorista só teve escoriações leves, mas eu fraturei o pé direito e quebrei os dedos. Tive de ficar cinco meses de cama, usando cadeira de rodas. Conheci toda a dificuldade que uma pessoa passa quando perde o movimento de um dos membros”, narra.

Depois de fazer tratamento no Hospital Roberto Santos, em Salvador, ficou um ano de muletas, realizando fisioterapia para recuperar a força no pé.  Cursar a faculdade, mais uma vez, foi uma luta a vencer. Os amigos Rubens e Vagner foram os anjos da guarda de Jeane. Eles a levavam para Seabra de carro, carregando-a  no colo e colocando-a na sala de aula do polo.

“Eldina e Flavia e todos os meus colegas de curso passaram a ser o pé que me faltava. Eu estava passando pelo momento mais difícil de minha vida, mas ao mesmo tempo eu vi o quanto sou amada e admirada pelos colegas de curso, minha família e os amigos”, constata Jeane.

Hoje o sonho de Jeane está mais perto de se concretizar, pois agora em 2015 ela deverá concluir a graduação Ead em História. A visão de mundo dela hoje é mais abrangente do que antes, pois se antes ela nem cogitava cursar uma graduação, hoje aconselha todos a realizar um curso universitário EaD. “É uma ótima opção para quem quer fazer uma graduação de qualidade e, ao mesmo tempo, não pode deixar sua vida cotidiana para se dedicar a um curso presencial”.

E completa, em tom religioso: “E na vida da gente, não importa se você é da zona urbana ou da zona rural, ou de qualquer classe econômica ou social, o que importa na vida da gente é colocar Deus na frente dos nossos sonhos, porque se for da vontade dele, ele vai nos dar condições diante das dificuldades, para que possamos vencer e nos tornar vitoriosos, como eu me considero vitoriosa hoje."

Mas o maior de todos os sonhos de Jeane é viver em uma sociedade mais justa e igualitária, em que as oportunidades de vida alcancem todos, sem distinção de classe econômica ou social. Por isso, ela escolheu ser professora, profissão que ela considera "a  mais bonita, porque é a arte de ser o mediador do conhecimento". E os planos para o futuro não poderiam ser diferentes: dar continuidade aos estudos e incentivar outros alunos a estudar e fazer o vestibular para um curso superior.

 

Do Núcleo de Comunicação da Unead
Jornalista Responsável: Nisia Rizzo de Azevedo - DRT/BA 1847